
| Plano Diretor Estratégico: revisão ou retrocesso? As Zeis e o direito da moradia |
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| Artigos | ||||||
| Ter, 10 de Março de 2009 01:51 | ||||||
Plano Diretor Estratégico: revisão ou retrocesso? As Zeis e o direito da moradia“Governar é abrir estradas” foi o lema de muitos administradores públicos no passado. Nesta concepção de governo, uma grande obra viária era suficiente para estimular o desenvolvimento econômico de uma região ou cidade. Era sinônimo de modernidade e pouca importância se dava para o reverso da moeda, como o impacto social e ambiental do projeto, por exemplo. Felizmente, hoje não é mais assim. Qualquer obra é cercada de muita discussão e estudos, para que ela seja extremamente funcional, favoreça o desenvolvimento econômico de uma comunidade e, ao mesmo tempo, preserve a qualidade de vida dos cidadãos.
Planejar o horizonte de uma cidade deve ser assim. Imagine pensar o futuro de uma metrópole como São Paulo sem levar em conta a vocação econômica da cidade, as características de sua população, a oferta justa e adequada a todos de serviços como transporte, saúde, educação, cultura, lazer e o direito à habitação? Uma ferramenta fundamental para isto é o chamado Plano Diretor Estratégico, que reúne um conjunto de normas municipais que procuram ordenar a ocupação de uma cidade de acordo com sua vocação, atividades predominantes e características geográficas. Os PDEs são propostas de longo prazo. A base de tudo é: a cidade que temos hoje e aquela que em que queremos morar, trabalhar e estudar no futuro. A atual lei foi aprovada em 2002 pela Câmara Municipal, durante a gestão da prefeita Marta Suplicy. São Paulo se prepara para fazer a revisão do seu Plano Diretor. É uma janela que se abre para se o que foi concebido está funcionando e corrigir eventuais erros ou omissões. Mas o que seria a ocasião para fazer ajustes pontuais neste diploma legal pode proporcionar surpresas desagradáveis para São Paulo. A gestão Gilberto Kassab na proposta que apresentou de revisão pode se traduzir em retrocesso para a vida da cidade. É chocante constatar que a atual administração enxerga o Plano Diretor como um burocrático código de obras, preferindo tratar na lei de questões pontuais do zoneamento e de medidas favoráveis ao mercado imobiliário. Ao mesmo tempo, esvazia a importância do PDE como instrumento estratégico para o poder público reafirmar seu papel de fomentador do desenvolvimento com qualidade. A proposta tira do Plano Diretor todas as referências às diretrizes de políticas públicas incluídas na lei aprovada na Câmara em 2002. Políticas relacionadas à educação, saúde, transporte e programas de inclusão social, como o Renda Mínima, sumiram do texto. Até o reconhecimento do SUS como instrumento adequado para desenvolver uma política universal na área da saúde também foi retirado. Será por conta da privatização, travestida de parceria com entidades, que o governo municipal está promovendo na área da saúde e que quer estender para outros setores do serviço público? Querem excluir do PDE diretrizes que tratam da participação popular na discussão do destino da cidade. Ou seja, a população não pode participar da discussão sobre os rumos da cidade que este governo quer dar e que vai mexer com esta mesma população!
Tudo isto se torna mais preocupante quando percebemos que corretamente o governo Lula, para gerar emprego, desenvolvimento, disponibilizou no PAC mais de 100 bilhões de reais para a habitação entre linhas de financiamento e investimentos públicos. Deste valor cerca de 10 bilhões é destinado a moradia popular. Por outro lado com o aquecimento da economia nunca se construiu tanto, como no último período, mas o grande problema é que as construtoras só constroem para a classe média alta e para os ricos. Então o que está colocado neste momento é que dinheiro disponível haverá, financiamento estará disponível, e a grande briga será a onde construir, onde existem os estoques de terra, pois na região central a média é de apenas 5% de terrenos vazios. E mesmo para a população de baixa renda, não adiantará disponibilizar recursos no PAC se não haverá área para desenvolver projetos, pois o poder econômico ficará com todas sem as ZEI também na área central. As grandes cidades do mundo, quando promoveram a reurbanização dos seus centros, reabitaram estas regiões. E de que forma? Reproduzindo nestes locais o que é a cidade. O poder econômico presente no centro, movimentando a economia e gerando empregos, a classe média presente e também a população de baixa renda. Para que este centro tenha uma vida, possa ser uma reprodução, uma célula menor do que é o conjunto da cidade. Do jeito que foi redigida, a revisão do Plano Diretor concebida pela administração municipal favorece apenas o poder econômico, a especulação imobiliária. Infelizmente, a proposta reafirma a conduta que este governo vem desenvolvendo na área social desde o início da administração, que é uma política higienista, para tirar os pobres do centro da cidade. Algumas vozes da cidade já começam a se levantar contra esta proposta. É preciso ir além, pressionar o Executivo para que reveja o projeto, aplique primeiro os instrumentos previstos no Plano Diretor para poder avaliar o que deu certo e o que deu errado e não permita que São Paulo, a maior cidade do Brasil, dê o péssimo exemplo de andar para trás em termos de planejamento urbano. Vereador do PT, membro da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara Municipal de São Paulo.
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