
| A favela foi a maior das minhas escolas |
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| Artigos | ||||||
| Qui, 29 de Setembro de 2011 13:34 | ||||||
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Cheguei à favela da Vila Prudente em 1957 e comecei a participar da luta de seus moradores e a entrar em contato com a classe média, bem como o governador, o prefeito, o secretário de estado, etc. A favela da Vila Prudente tem a sua história. Ela é a mais antiga de São Paulo. Existe desde 1940, mas não neste local atual. Originalmente assentada na região do Cambuci, onde hoje estão os prédios do Exército, deslocou-se para essa área de propriedade do Estado em 1941. Havia duas favelas: essa e a do Vergueiro, posteriormente extinta. No perÃodo entre 1953 e 1954, seus moradores sofreram um grande despejo, mas em 1955, mobilizaram-se e criaram a Sociedade Amigos da Favela de Vila Prudente, registrada e legalizada, como todas o são. Já em 1960, ela foi reconhecida como sendo de utilidade pública pelo Governo do Estado. A nossa luta continua, não só pela nossa favela, mas pelas outras também. Pelo Censo do FIBGE de 1980, São Paulo possuÃa novecentas e cinquenta e quatro favelas, discriminadas segundo o tamanho: trezentas e cinquenta e oito grandes favelas e o restante núcleos, que hoje transformaram-se em favelas. Atualmente, 1983, nós temos quase um mil e duzentas favelas e mais ou menos um milhão de favelados a exigir de nossa parte uma luta constante para que essa população favelada tenha o seu espaço. No Nordeste, eu nunca fui rico, mas também nunca fui pobre ou miserável. Como a minha famÃlia toda estava no Rio de Janeiro, fui para lá com quarenta anos de idade, não conseguindo os melhores empregos em função da idade. Eu havia sido um bom datilógrafo e um emprego de quatro ou cinco salários mÃnimos não seria difÃcil conseguir, mas fui sistematicamente rejeitado em função desse fato. Restou-me ir trabalhar em biscates como servente de pedreiro para sobreviver. Não queria voltar para o Nordeste, porque aà estaria em situação muito pior. Do Rio de Janeiro me transferi para São Paulo, onde jà se encontravam alguns parentes meus. Chegando aqui encontrei os mesmos obstáculos; fui trabalhar ganhando salário mÃnimo e morando no bairro da Penha, onde consegui alugar uma pequena casa de um cômodo e cozinha. Minha esposa, não se adaptando ao clima, adoeceu gravemente e, sem condição de pagar o aluguel, restou-me vir para a favela. Na favela, o estado de saúde de minha mulher piorou e ela faleceu, deixando-me quatro crianças, uma delas com apenas um ano e oito meses. Fiz tudo isto pensando em melhorar de vida. O Nordeste não me oferecia nada, razão pela qual viemos minha famÃlia e eu tentar a sorte aqui no Sul. Da época em que aqui cheguei até os dias atuais, percebo que aconteceram mudanças extraordinárias. Afirmo com convicção porque acompanho tudo desde o Nordeste. Lá eu trabalhei e convivi com os coronéis, usineiros e jagunços e isso ainda existe, não acabou. Em 1950, chegando ao Rio de Janeiro, tomei parte de todos os movimentos, assisti a todas as transformações polÃticas; naquela época, Getúlio Vargas estava no Rio, e eu vinha acompanhando tudo, porque queria estar atualizado. De 1964 para cá, houve mudanças extraordinárias: o Brasil nunca esteve em situação semelhante, mas esse fato não constitui surpresa para quem vem acompanhando os acontecimentos. Naquela época, já se sabia que isso iria acontecer. A mudança que mais senti foi no campo polÃtico e econômico. As favelas só cresceram e a maioria das pessoas pensa que a maior parte da população favelada é constituÃda de nordestinos e não é verdade; os nordestinos têm uma participação de cerca de 14% sobre esse contingente. O restante é constituÃdo de pessoas que vieram de Minas Gerais, Mato Grosso, do interior de São Paulo e Paraná, fugindo da lavoura. O meu mundo é á favela, mas o que me preocupa não é somente a favela de Vila Prudente, mas sim a sua totalidade. Vejo esse fenômeno como efeito, cuja causa não está dentro dela. E isso representa muito bem o sistema. Faz parte do sistema do mundo capitalista. O que eu vejo: favelas, miséria no campo, miséria em todos os setores, eu atribuo a causa das favelas a essa miséria toda. Condeno o sistema, condeno os conservadores desse sistema, que não aceitam nem mudanças, nem renovação de estruturas. Quanto à participação da mulher, sempre me baseio nas leis de transformações, porque essas leis fazem parte de um processo de evolução; este requer mudanças e os conservadores impedem-nas. A posição que a mulher está tomando atualmente eu acho muitÃssimo importante, embora não deixe de fazer algumas crÃticas também. Acho que não estão sabendo como começar. Acredito que, no dia em que as mulheres descobrirem seu potencial, acontecerão muitas coisas extraordinárias, mesmo porque o valor delas é muito maior do que o nosso. A participação da mulher é também muito importante na luta dos pobres, na luta pelo direito de mostrar que ela não é objeto e sim gente como nós. Para finalizar, espero realmente que essa batalha que estão começando agora se aperfeiçoe cada vez mais e que elas descubram o seu real valor. O divertimento aqui na favela é praticado, de certa maneira, não tão diferentemente das demais classes; temos três clubes de futebol; faz-se turismo, alugando-se ônibus para passeios a Santos, Pirapora etc. Então, percebe-se que eles fazem as mesmas coisas que as pessoas de outras classes fazem, embora sem as mesmas possibilidades, naturalmente. Mas nossa maior preocupação são as crianças. Temos aqui cerca de quatro mil crianças de zero a catorze anos. São crianças que nós consideramos abandonadas. Essas preocupações são amenizadas, em parte, pela visita sistemática que nos fazem estudantes, estagiários, ou mesmo voluntários que sempre trazem uma pequena ajuda. Isso propicia certo entrosamento das pessoas daqui com as de fora; mas o que mais nos prejudica em nossas favelas é a discriminação. É terrÃvel o preconceito. É próprio do sistema estar dando nÃveis ao mundo: o mundo elite, o mundo classe média, que não existe mais, o mundo pobre e o miserável. Nós sentimos essa rejeição, porque o sistema só permite que se faça esse intercâmbio cultural de cima para baixo. Cada um vive o seu mundo julgando o outro e o julgamento que se faz dos favelados é que estes são marginais, malfeitores etc. O que posso assegurar e posso provar é que 99% dos favelados de São Paulo são trabalhadores, embora exista 1% de desocupados comprometendo um julgamento precipitado da maioria pela minoria. Essa é a rejeição que mais sentimos e que mais nos prejudica. Quando vou à s assembleias, congressos e seminários para expor nossos problemas, não é com a intenção de ser aplaudido ou elogiado. Falo sobre fatos concretos, palpáveis e que podem ser provados, mas é grande a dificuldade que encontramos em nos comunicar com "esses mundos"; mas de qualquer forma "a favela foi a maior das minhas escolas", onde pude descobrir a existência desses dois mundos, dessas duas classes sociais: a média e a elite. Quando conversamos com certos elementos que ocupam cargos de confiança, notamos que são criaturas que se entronizam dentro de seus gabinetes, andando em tapetes e pensando que são super-homens. Não há integração entre o poder constituÃdo e o povo. É um mundo completamente separado, como estamos separados do mundo indÃgena. O que se diz dos Ãndios é que são antropófagos e eles não são. Dizem que somos marginais, ladrões, malfeitores e não somos mesmo porque se assim fosse, já terÃamos tomado conta do Governo. Várias pessoas daqui da favela conseguem se promover. E um esforço que eles fazem, tentam sair, estudar. Sabe-se perfeitamente que a educação hoje é um privilégio e, além disso, paga-se muito para se aprender pouco, com a agravante de que o ingresso no mercado de trabalho é coisa dolorosa. Com essa dificuldade toda, sem que se mude o sistema, sem que se renove a estrutura, não conseguiremos nada. Os conservadores seguram esse processo vigente, sem ver que criam condições para essa situação continuar. Esse mundo capitalista, que só aprendeu a matar e escravizar, não vai ter mais esperanças; chegará o dia em que eles próprios darão fim ao que defendem. Finalizando, gostaria de assinalar que a nossa luta aqui na favela de Vila Prudente continua; temos o mÃnimo, mas para nós representa muito. Já conseguimos sistema de esgoto, ambulatório, médico, creche, melhoramento das ruas, água, luz, mas bem entendido, nada gratuito, pagamos todas as contas. Quanto a mim, orgulho-me em dizer que "não tenho rabo preso com ninguém", sejam favelados ou grupos que trabalham comigo. Presto assistência a todos gratuitamente e faço de tudo: carteira de identidade, certificado de reservista, etc. Tento, na medida do possÃvel, resolver problemas familiares e outros. De qualquer forma, fica aqui um registro final: se tivéssemos apoio, mais garantias, mais espÃrito de solidariedade por parte dos vários segmentos da sociedade, acredito que o nosso trabalho seria melhor. Como disse anteriormente e repito: "a favela foi a maior das minhas escolas."  Manoel Francisco EspÃndola Nasceu em União dos Palmares, Alagoas, em 1915. Foi Presidente da Sociedade Amigos da Favela de Vila Prudente e Coordenador do Movimento da Favelas de São Paulo. Faleceu em 04 de julho de 1990. O texto foi escrito em 1983 para a coleção Memória Urbana, Volume I, lançado em 2001 pela Imprensa Oficial -Arquivo do Estado. Em 2008 foi aprovada a lei 14.845 do vereador Chico Macena, criando em sua homenagem a Praça Manoel Francisco EspÃndola entre a Rua Dianópolis e Av Luiz Ignácio de Anhaia Melo, localizada em frente a favela de Vila Prudente.
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