São Paulo recebeu pelo 4º ano o Desafio Intermodal, um evento inteligente e descontraído organizado pela sociedade civil, em sua maioria cicloativistas, com o propósito principal de divulgar o Dia Mundial Sem Carro, em 22 de Setembro, e nos levar a refletir sobre qual é a forma mais eficiente de se locomover. A princípio parece uma corrida maluca para medir o tempo de deslocamento que um cidadão obtém de um ponto A ao ponto B utilizando vários modais de locomoção disponíveis na cidade, olhando mais de perto.
Hoje a cidade de São Paulo tem mais de 10 milhões de habitantes, enquanto o número populacional nas centrais diminuem, este número nas regiões periféricas cresce. No período de oito anos, a quantidade de moradores das regiões mais afastadas da capital chegou a aumentar até 100 mil. Ou seja, temos várias cidades crescendo dentro da de São Paulo. Mas os equipamentos sociais e a infra-estrutura necessária para atender esta demanda não cresce no mesmo ritmo que a população. Os moradores sofrem com deficiência de vagas em creche, escolas, saneamento, esgoto e cultura. As demandas não param de crescer.
A frota de automóveis ultrapassa os 6 milhões de veículos. Logo teremos que comprovar a existência de vagas para guardar o veículo, antes de comprá-lo. O sistema de estacionamento em vias públicas caminha para extinção. Pois o poder público esta abrindo vias e faixas para fluir o trânsito o estagnado. A previsão é que aconteça um boom de novas medidas no sistema de mobilidade da capital como estacionamentos verticais, subterrâneos e mecanismos inteligentes de controle para Zona Azul. Num futuro próximo serão implantadas mais restrições para circulação do carro, inclusive por meio do pedágio urbano. O espaço na cidade tem um limite e isto é uma tendência natural e obrigatória para grandes cidades.
O sistema de transporte coletivo da cidade é insuficiente, os investimentos são lentos, os projetos são adiados devido a execuções mal feitas. A população sofre com a falta de prioridade e com os erros de planejamento. Existem mais de 15 mil ônibus na cidade, mas não há investimentos a altura do necessário em corredores. Quem pega ônibus sabe que nos últimos anos o número de assentos foi reduzido. O número de quilômetros de metrô, que hoje está em 61 km, cresce apenas 1 km ao ano. A cidade possui 240 km de linhas de trem que está com crescimento praticamente estático.
Entre os fatos negativos com relação a mobilidade está prorrogação do PITU - Plano Integrado de Transportes Urbanos para 2025, a falta de execução de um Plano Municipal de Mobilidade e Transporte, um plano cicloviário restrito apenas ao lazer, e não ao transporte. O transporte coletivo privado tem restrições incabíveis. O resultado desta falta de políticas publicas para mobilidade é constatado pelo número superior a 4 milhões de viagens feitas à pé todos os dias.
A frota de helicópteros está acima de 560 unidades. E falta fiscalização aérea que possa regulamentar ou restringir os heliportos clandestinos. Inclusive existem bairros como a Vila Olímpia que tem um número maior de heliportos que pontos de ônibus. Mas um dado que comprova que passou da hora de regulamentar está atividade.
Voltemos para o Desafio Intermodal.
Vídeo da Renata Falzoni cobrindo o evento
18 pessoas partiram do mesmo local, no Brooklim, no mesmo horário, em 18 modais diferentes de transporte, com destino ao viaduto do Chá.
Segue o tempo de deslocamento total que os participantes registraram utilizando os modais abaixo:
CHEGADA
MODAL
TEMPO EM MIN
1º
CICLISTA EM BIKESEM MARCHA
22,33
2º
MOTOCICLISTA COMUM
25
3º
CICLISTA PROFISSIONAL
25,3
4º
HELICÓPTERO
33,5
5º
CICLISTA EXPERIENTE POR VIAS RÁPIDAS
37
6º
CICLISTA EXPERIENTE POR VIAS LOCAIS
38,2
7º
MOTOCICLISTA PROFISSIONAL
42,28
8º
CICLISTA INICIANTE POR VIAS LOCAIS
66
9º
PEDESTRE CORRENDO
66,3
10º
CICLISTA COMBIKE DOBRÁVEL + ÔNIBUS
68
11º
ÔNIBUS
71,2
12º
CARRO
82
13º
TREM +METRÔ
84
14º
TREM +ÔNIBUS
89
15º
PEDESTRE CAMINHANDO
92
16º
TREM+ORCA+METRÔ
99
17º
CADEIRANTE + TREM + ÔNIBUS
108
18º
ÔNIBUS +METRO
109
O fato da bicicleta se mostrar o meio de transporte mais eficiente no deslocamento urbano dentro do nosso cenário, como mostram os resultados do Desafio Intermodal nos anos anteriores, realizando um mesmo trajeto e em menos tempo que outros modais como carro, moto, e ônibus , já deveria deixar a administração desta cidade de cabelo em pé, pela lógica isso não deveria acontecer, isso é sinônimo de que tem coisa errada na forma como a mobilidade de pessoas e o transporte público é tratado. É preciso rever as políticas, os investimentos, as prioridades. Isto por si só isso é um tapa na cara do poder público, pois mostra que a cidade não está indo no caminho devido. A bicicleta realizar o mesmo percurso que um carro, moto e ônibus e fazer em menos tempo é mais do que suficiente para colocar todo mundo na mesa e discutir onde estamos errando, pois a cidade está prestes a parar, os investimentos em tempo e a vida desta cidade estão sendo jogados pelos escapamentos.
Os resultados do 4º Desafio Intermodal e espanta em alguns segundos: a imobilidade chegou ao céu. Neste caso, pergunto se o céu é o limite. A coisa está por que a coisa está feia aqui embaixo. Pois, a bicicleta ir do mesmo ponto A ao mesmo ponto B que um helicóptero e chegar com quase 11 minutos de vantagem, é de se espantar. Isso não é prova da eficiência do modal por bicicleta, é prova da ineficiência da administração pública no quesito de investimentos no sistema público de transporte. A expectativa é que o investimento continue sendo mal planejado, nosso modelo de mobilidade foi jogado ao chão, ele não funciona, não serve a cidade. É preciso repensar, acordar, priorizar o transporte coletivo, pois o individual está sendo caro para todos. A expansão do metrô não convence. O valor de 1 bilhão no metrô até 2012 é equivalente a 1 quilometro por ano de expansão. A implantação do VLP na Zona Leste irá criar um sistema saturado. A falta de investimos nos corredores de ônibus é um erro até mesmo ambiental, e quanto mais o tempo passar mais difícil ficará, pois a população da cidade cresceu quase 120 mil pessoas, em 10 anos.
Outro resultado deste desafio que corrobora com esta análise sobre a falência da mobilidade, constata que um pedestre correndo na via, consegue ser mais veloz em nosso trânsito que o ônibus e o carro. Uma pessoa caminhando consegue ser mais eficiente em seu deslocamento na hora do rush que alguém utilizando a combinação de trem, ponte orca e metrô, ou simplesmente ônibus e metrô.
A imobilidade em nossa cidade se tornou um pesadelo que chegou até o espaço aéreo.