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Artigos
Qui, 08 de Outubro de 2009 14:09
A base de apoio de um governo Dilma Rousseff será necessariamente mantida pela união daquilo que há de mais próximo ao povo brasileiro na classe política.

A fundamentada convicção de que o Brasil só se tornará uma nação desenvolvida se continuar reduzindo as desigualdades que moldam sua sociedade há cinco séculos é o que move aqueles que enxergam a ministra Dilma Rousseff como a legítima sucessora do Presidente Lula. E, para explicar os motivos dessa confiança, são consensuais em também enfatizar os valores intelectuais, de luta e de trabalho que estão impregnados na trajetória de vida dessa mulher brasileira que conquistou o respeito de quem com ela convive.

No entanto, vem do mesmo lugar de sempre os preconceitos e as tentativas de desqualificação de um projeto voltado para as necessidades de todos os brasileiros e não
somente de alguns.

É fato que as inescapáveis circunstâncias políticas conspiram a favor da viabilização de sua candidatura e oferecem as imprescindíveis condições de governabilidade. Entretanto, é necessário reforçar os motivos pelos quais essas condições favoráveis foram alcançadas. Diferente do que tentam fazer crer setores da oposição demotucana e dos neoverdes, o projeto do Governo Lula é vitorioso, e sua continuação na figura da candidata Dilma também será, por se diferenciar profundamente dos modelos anteriores. A diferença se dá no nascimento. Esse é um Governo nascido do povo brasileiro e não da sua elite egoísta e mesquinha.

É por isso que alguns dos representantes dessa elite, sejam eles políticos, intelectuais, jornalistas ou ruralistas, não entendem como Lula mantém níveis tão altos de provação. Na campanha de 2002 a mídia brasileira insistia em associar o candidato Lula ao MST e às invasões, pensando é claro em prejudicá-lo eleitoralmente em favor do seu candidato preferido, o então candidato José Serra, e o resultado era exatamente o contrário: a subida de Lula nas pesquisas. Já se prenunciava ali o aumento da distância entre essa elite e o conjunto do povo brasileiro. Eles não entendiam e ainda não entendem que, entre o trabalhador rural sem terra que aparecia nas telas clamando pelo direito de ter um pedaço de chão para produzir e o latifundiário que aparecia ao lado do seu advogado exigindo a ação enérgica do Estado, de preferência da polícia, para devolver-lhe a posse da propriedade invadida, o povo brasileiro apresentava muito maior empatia com o primeiro.

Da mesma maneira que o PT acha fácil se identificar, interpretar e defender os interesses da maioria do povo brasileiro, por ser formado a partir de suas organizações
de base, os partidos políticos de oposição ao Governo Lula e à candidatura Dilma, e
seus admiradores na mídia e na academia, não só acham a tarefa impossível como, às
vezes, nem percebem quão alienados dos verdadeiros interesses populares eles estão. A
tentativa desses setores de construir crises mostra bem seu despreparo para cuidar dos
interesses coletivos. Vejamos o caso da pseudo crise, já esquecida, da aviação, por
exemplo. Foram meses de ataques diários e nada de manifestação popular ou reflexo
nos níveis de aprovação do Governo. Esqueceram de dizer aos opositores que o povo
brasileiro não viaja de avião. O que para a elite era um problemão não chegava nem
mesmo a ser percebido pelo povo.

Como ainda não se deram conta disso e procuram de qualquer forma uma maneira de impedir a continuidade de um governo que contraria seus interesses ao buscar diminuir as graves diferenças que impedem o desenvolvimento brasileiro de forma humana, pacífica e sustentável, essa parte da elite, achando que descobriu um interesse legítimo do povo que poderia servir à sua causa, tenta usar a causa ambiental contra o sucesso do Governo Lula, do PT e da sua candidata Dilma.

Os representantes da elite brasileira ao perceberem que é quase impossível conciliar um discurso ambientalista com partidos como o da Senadora Kátia Abreu, a musa dos ruralistas, lançam mão de uma “quinta coluna” e incentivam o surgimento de uma candidatura verde.

Novamente a percepção do problema ambiental por parte das classes letradas e endinheiradas é tão diferente daquela da maioria do povo brasileiro que eles continuarão
falando para as pedras, ou no máximo para os seus vizinhos. A sorte do Brasil e do seu
povo é que, na democracia, todos os votos têm o mesmo valor e a maioria vence.
Assim, estamos vacinados contra os projetos mirabolantes de professores que passam a
vida em salas com ar condicionado, viajando de avião, protegidos em seus blazers de
legítima lã inglesa e que imaginam ter a resposta certa para todos os problemas. Dilma
assim como Lula e o PT aprenderam nas bases e no Governo que os problemas do povo
brasileiro são complexos, têm múltiplas causas e exigem abordagens também abrangentes e plurais. Os petistas e seus aliados sabem que os legítimos representantes
do povo são seus eleitos e, por isso, tratam com respeito os políticos, mesmo os da oposição, e não embarcam na crítica fácil e falsa ao Congresso e à política, discurso que
só interessa aos que se locupletaram sob o regime militar e, não por acaso, são os
mesmos a defender hoje o golpe em Honduras. Defender democraticamente a causa
ambiental a partir do ponto de vista do trabalhador e da maioria do povo brasileiro será
uma grande tarefa e ao mesmo tempo mais uma oportunidade para o PT e seus aliados
na campanha presidencial de 2010.

Outra característica desses alienados donos da razão é chamar de besteira tudo
que não foi dito por eles mesmos. É bastante razoável aceitar que nem todo ambientalista é verde e nem todo verde é ambientalista, mas não é esta a questão. Em
um país complexo como o Brasil, acreditar que é possível estruturar um projeto
nacional a partir do eixo da sustentabilidade ambiental, sem discutir antes a desigualdade e os diferentes interesses das diversas classes sociais do país, inclusive o
sacrifício que será exigido de cada um em nome da conservação ambiental, e começar
com um discurso que chama de besteirol a opinião alheia, não me parece ser nem o
melhor projeto, nem a melhor retórica e uma péssima estratégia.

Repito, não é razoável esperar sucesso na promoção da sustentabilidade ambiental enquanto não forem firmemente atacadas e resolvidas as causas estruturais dos problemas humanos crônicos brasileiros, como analfabetismo, desnutrição, desemprego, desigualdade de renda e concentração fundiária. Por isso é preciso continuar com o projeto de governo que mude definitivamente a triste realidade versada por João Cabral de Melo Neto de que a única parte da terra que cabe ao trabalhador é a cova e, mesmo assim, “não é cova grande, é cova medida, é a terra que querias ver dividida”. Conservar apenas, sem distribuir ou possibilitar maior acesso à terra, poderia
mantê-lo nessa situação. Esse projeto não terá meu voto, nem da maioria. Por isso
prefiro Dilma.

Escrito por ALFREDO JOSÉ BARRETO LUIZ
46, é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.

(Esse artigo foi escrito em resposta ao artigo “Preferir Marina”, de José Eli da Veiga,
publicado na Folha de São Paulo, e utilizou-se da estrutura do referido texto).
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